Vítor e a conquista de especialidades

Constantemente as pessoas me perguntam o que fazemos no escotismo. É difícil responder resumidamente, porque fazemos muitas coisas, em diversas áreas. A missão do escotismo é ajudar a construir um mundo melhor, onde as pessoas se realizem como indivíduos e desempenhem um papel construtivo na sociedade.

Tudo bem, as palavras são muito bonitas, mas você vira e me pergunta: como? Eu poderia falar horas sobre como trabalhamos com o sistema de educação não formal, mas eu prefiro demonstrar com exemplos. Quer jeito mais simples de entender? Eu, particularmente, acho que assim é muito mais fácil. Então eu posso falar de como o meu filho está se tornando um individuo que, em algum tempo, estará apto a desempenhar um papel construtivo na sociedade.

Como vocês sabem, o Vítor tem 7 anos, completa 8 em janeiro. Então ele é um lobinho, o ramo do escotismo que abrange crianças entre 6,5  e 11 anos. Existem diversas etapas a serem passadas por eles nessa fase, mas não vou falar delas agora. Vou falar do sistema de especialidades. A Especialidade Escoteira é uma conquista pessoal que indicam o conhecimento de determinado tema por certo escoteiro. As especialidades são concedidas em três níveis, diferenciados pelas seguintes cores:

    Nível 1: Amarelo
    Nível 2: Verde
    Nível 3: Grená


Para obter uma especialidade no nível 1, é preciso cumprir 1/3 dos requisitos. Ou seja, se houverem 9 requisitos, basta cumprir 3. Se houverem 12, é preciso cumprir 4, e assim em diante. Para obter o nível 2, são necessários 2/3 dos requisitos, e para o nível 3, todos os requisitos. Existem cinco ramos de conhecimento para as especialidades e as mesmas são necessárias para diversas conquistas escoteiras.


Enfim, voltando ao caso do Vítor, ele está empolgadíssimo com a idéia de tirar suas especialidades. Então, desde domingo que estamos debruçados no computador lendo e relendo todos os 5 ramos, todas as especialidades, para encontrar uma que ele consiga tirar direitinho. A primeira coisa que ele aprendeu é que especialidade não se ganha sem merecer, não é de graça. Ao ler os requisitos, ele viu que não seria assim, de mão beijada. Então está arregaçando as mangas e indo atrás, para se fazer merecedor (e eu aqui me enchendo de orgulho).

A primeira que ele decidiu tirar, por achar que tem mais requisitos pra isso, é a especialidade de babá. Como ele acompanha bastante os cuidados com a Alice, desde que ela nasceu, ele sabe mesmo bastante coisa. Olhem os requisitos:

BABÁ   
1- Saber os telefones de emergência de sua localidade.
2- Descrever regras de segurança a serem observadas quando cuidando de crianças e bebês.
3- Saber os cuidados de higiene a observar no trato com crianças e bebês.
4- Ter noções básicas de primeiros socorros.
5- Saber trocar a fralda de um bebê.
6- Preparar uma mamadeira.
7- Distrair duas crianças, por mais de quatro horas.
8- Saber lidar com doenças infantis mais comuns.
9- Trabalhar como voluntário durante, no mínimo, cinco períodos, totalizando 20 (vinte) horas, em uma creche, escola maternal ou jardim de infância, descrevendo o seu funcionamento.
Lembrando que, para obter o primeiro nível é preciso cumprir 1/3 dos requisitos. O item 1 ele sabe direitinho. O item 2 ele sabe mais ou menos, mas já foi correndo pegar um livro meu que fala sobre o assunto e está lendo com afinco (mais orgulho). O item 3 ele também sabe direitinho. O item 4 ele não sabe muito não. O item 5 ele já sabia a teoria, mas de ontem pra hoje já trocou a fralda dela duas vezes, direitinho. O item 6 ele também sabia na teoria, tanto que sempre ensina para a minha mãe quando ela vem aqui. Mas também já se ofereceu para fazer hoje, inclusive fez serviço completo: lavou a mamadeira primeiro e depois fez o leitinho. Os itens 7, 8 e 9 eu acho muito complexos para uma criança da idade dele. Mas, se formos avaliar, ele está cumprindo com 2/3 dos requisitos e pode tirar a especialidade de nível 2. Mesmo assim, vou deixá-lo se dedicar um pouco mais aos item 2, só pra dar uma valorizada na conquista.

E vocês precisam ver que mudança isso deu aqui em casa. Até ele decidir que ia tirar essa especialidade, tudo era motivo de briga com a Alice. Era só um olhar mais demoradamente para o outro que rolava rosnados. Agora ele anda todo solícito com ela, ajuda a subir a escada, tem mais paciência para brincar e aturar as chatices de irmã mais nova. Claro que eu não acho que isso vá durar para sempre, afinal de contas eles são crianças e são irmãos, o que significa que vai mesmo rolar muita desavença ainda por aqui. Mas se restar um pouquinho desse esforço aí, só dele se esforçar, para mim já está valendo muito!
Aí você pode me perguntar: mas qual a utilidade de uma criança dessa idade saber isso? Eu vejo muitas! Primeiro que, mesmo que daqui a 20 anos ele não se lembre mais como troca uma fralda, ele não vai ser totalmente leigo no assunto, é como andar de bicicleta, a gente perde o jeito mas não esquece totalmente. Me diz aí, quantos homens vocês conhecem que, antes de terem o primeiro filho, já sabiam trocar uma fralda ou fazer uma mamadeira? Segundo que saber os telefones de emergência é sempre muito mais do que útil, é essencial. Terceiro que uma criança saber as regras de segurança para quando se tem crianças menores é especialmente vantajoso. Ela assume o papel de quem ensina, então ela também aprende. O que significa que o risco dela se envolver em uma situação perigosa reduz consideravelmente. Tem algumas outras utilidades por aí, mas acho que vocês já entenderam o meu ponto de vista.

Ele escolheu ainda outras duas especialidades para tirar, Jornalismo e Artesanato, mas como decidimos começar por essa, vou deixar para contar das demais em outra ocasião. E prometo vir aqui contar e mostrar com fotos quando ele receber o distintivo, tá?

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